IncongruĂȘncias da Anvisa que devemos questionar
- Alberto Danon
- 27 de jan. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 6 de abr. de 2025
InconsistĂȘncias preocupantes nas decisĂ”es da Anvisa: Um olhar crĂtico sobre a polĂtica e a tĂ©cnica em jogo.

A Anvisa - AgĂȘncia Nacional de VigilĂąncia SanitĂĄria, responsĂĄvel por zelar pela saĂșde pĂșblica no Brasil, tem exibido posturas inconsistentes que levantam sĂ©rias preocupaçÔes sobre sua condução, jĂĄ que parece existirem duas "Anvisas": a polĂtica e tĂ©cnica. Dois exemplos recentes ilustram essas incongruĂȘncias: a controversa resolução sobre a bula impressa de medicamentos e as decisĂ”es em torno dos cigarros eletrĂŽnicos.
Bulas impressas: Uma reviravolta preocupante
Em julho de 2024, a Anvisa publicou a RDC - Resolução da Diretoria Colegiada 885, que permite a eliminação gradual das bulas impressas de medicamentos, substituindo-as pela versĂŁo digital em um projeto-piloto. A decisĂŁo desconsiderou amplamente os resultados da consulta pĂșblica promovida pela prĂłpria agĂȘncia e pesquisa, como a do Instituto DataFolha, que revelou que mais de 80% dos brasileiros preferem a bula impressa dentro da caixa e que 66% da população enfrenta dificuldades no acesso digital.
A mudança radical na postura da Anvisa Ă© ainda mais preocupante quando se considera que, inicialmente, o estudo tĂ©cnico recomendava a redução para 50% das bulas impressas nas embalagens mĂșltiplas, enquanto a decisĂŁo final da diretoria diminuiu, "repentina e surpreendentemente" em 90%, atĂ© finalmente extinguir qualquer obrigatoriedade. Tal decisĂŁo desrespeita o CDC, especialmente em um paĂs onde milhĂ”es ainda enfrentam exclusĂŁo digital.
O que mais causa espanto Ă© que, no final de 2021, o ĂłrgĂŁo emitiu nota tĂ©cnica (48/21) enquanto o projeto ainda tramitava na CĂąmara dos Deputados defendendo fortemente a manutenção das bulas impressas. Destacamos aqui alguns trechos. Segundo a Anvisa, "avalia-se que o PL, se aprovado o texto como apresentado, poderĂĄ causar problemas para a segurança de pacientes, uma vez que ele nĂŁo estipula um mĂnimo de bulas a serem entregues junto Ă embalagem dos medicamentos. Logo, poderĂĄ ocorrer prejuĂzo para o uso racional dos medicamentos, uma vez que nem todos os pacientes tĂȘm acesso Ă internet, consideradas as disparidades socioeconĂŽmicas do Brasil". O ĂłrgĂŁo tambĂ©m afirmava que o projeto de lei e a extinção da bula impressa "sĂŁo inadequados e inoportunos para a saĂșde da população."
A nota tĂ©cnica da Anvisa ainda informava que "o PL busca alterar uma lei que trata do Sistema Nacional de Controle de Medicamentos, que tem como objetivo a rastreabilidade de remĂ©dios, assunto nĂŁo diretamente relacionado Ă s bulas de medicamentos. Considerando os impactos negativos Ă saĂșde pĂșblica relativos Ă alteração trazida pelo PL, no sentido de inviabilizar a identificação individualizada dos medicamentos e tambĂ©m considerando os investimentos jĂĄ realizados atĂ© aqui, a sugestĂŁo da Anvisa era manter a redação, vigente, atual."
Perguntamos: O que a fez mudar radicalmente de posição!? Causa-nos grande estranheza.
Fatos que merecem luz sobre o posicionamento "polĂtico" da Anvisa:
Mudança de direção nas bulas: A reversão de decisÔes em favor de bulas unicamente digitais ignora a exclusão digital e a segurança de grupos vulneråveis.
Consulta PĂșblica ignorada: A preferĂȘncia pela manutenção das bulas impressas foi amplamente desconsiderada, questionando a seriedade da consulta pĂșblica da prĂłpria Anvisa.
AçÔes em cigarros eletrĂŽnicos: A hesitação em tomar medidas claras e a aparente abertura a influĂȘncias externas comprometem a credibilidade da agĂȘncia.
TransparĂȘncia e interesse pĂșblico
As recentes açÔes da Anvisa sugerem uma priorização de interesses polĂticos e econĂŽmicos em detrimento dos tĂ©cnicos e da saĂșde pĂșblica. A defesa da informação acessĂvel, como a manutenção das bulas impressas, demanda decisĂ”es baseadas em ciĂȘncia e compromisso com a população.
Ă essencial que a sociedade continue vigilante e pressione por maior transparĂȘncia e coerĂȘncia da agĂȘncia, garantindo que o bem-estar pĂșblico esteja sempre acima de interesses secundĂĄrios.

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